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Ecossistemas e o Ano Que Roda
Como a terra, a água, as plantas e os animais se encaixam
6 minAvançadoAtualizado
- Ler uma paisagem como um conjunto de habitats ligados entre si
- Prever o que cresce e o que se move onde, mês a mês
- Usar o pensamento de ecossistema para colher, cultivar e caminhar com menos danos
Tudo come alguma coisa
Um ecossistema é uma teia de quem come quem, assente em solo, água e luz do sol. As plantas captam a luz do sol. Os herbívoros comem as plantas: lagartas, coelhos, veados. Os predadores comem-nos a eles: aves, raposas, lobos. Os decompositores, sobretudo os fungos, devolvem tudo ao solo. Tira um elo e a teia desloca-se. Sem lobos, os veados disparam e as árvores novas desaparecem. Sem sebes, não há insetos, por isso não há aves, por isso há mais pragas nas culturas. A maior parte das coisas úteis que quem colhe, cultiva ou caminha vê são sinais destas ligações: um urtigal diz azoto, um prado de flores silvestres diz que ninguém pulverizou, um ramo coberto de líquenes diz ar limpo, um ribeiro com efémeras diz água limpa.
Habitats e orlas
Aprende a ver uma paisagem como habitats: bosque, a sua orla, prado, mato, zona húmida, margem de rio, duna, encosta rochosa, campo cultivado. Cada um tem as suas plantas e os seus animais. As orlas, onde dois habitats se encontram, são o terreno mais rico: a sebe entre o bosque e o campo tem espécies dos dois mais algumas próprias, e é aí que se encontram as amoras, a aveleira, os abrunhos bravos, os frutos da roseira-brava, as aves a nidificar e a maioria dos rastos. As zonas húmidas têm mais vida por metro quadrado do que qualquer outro habitat e são as mais frágeis. O mato mediterrânico de estevas, urzes e medronheiro parece desmazelado mas alimenta abelhas, coelhos, perdizes e javalis. Quem colhe trabalha nas orlas; quem caminha para ver animais senta-se na orla ao amanhecer.
O ano mediterrânico anda ao contrário
O norte da Europa tem uma estação de crescimento de abril a outubro e um inverno morto. O Mediterrâneo inverte isto. A chuva de outubro acorda a terra: a erva fica verde, os cogumelos frutificam debaixo dos carvalhos, caem as castanhas, apanha-se a azeitona em novembro e dezembro. O inverno é ameno e verde. A primavera, de fevereiro a maio, é a explosão: orquídeas, estevas, espargos bravos, aves a nidificar, tudo ao mesmo tempo. Depois o verão, de junho a setembro, é a estação morta: a erva vira palha, os ribeiros secam, o risco de incêndio atinge o máximo, as plantas fecham-se e os animais mexem-se ao amanhecer e ao anoitecer. Se aprendeste a natureza num livro do norte, acerta o calendário. Em Portugal, setembro é o começo do ano, não o fim.
Ler as estações onde quer que estejas
A fenologia é o registo do que acontece e quando: a primeira andorinha, o primeiro cuco, os amentilhos da aveleira, a primeira geada, o amadurecer das amoras. Guarda essas datas no teu diário ano após ano e vais ter um calendário afinado ao teu próprio vale. Vai dizer-te quando procurar cogumelos (cerca de 10 dias depois da primeira chuva forte de outono com noites amenas), quando caem as castanhas (depois das primeiras tempestades de outubro), quando rebenta o espargo bravo (duas semanas depois da primeira chuva quente da primavera), quando as carraças atingem o pico (dias de primavera quentes e húmidos). Também te vai mostrar o clima a mudar: primaveras mais cedo, outonos mais tarde, verões mais secos. É o conhecimento local que faz os guias de campo nacionais funcionarem.
O fogo, a água e a mão humana
Os ecossistemas mediterrânicos evoluíram com o fogo e o pastoreio. O sobreiro e a esteva rebentam depois dos incêndios; o montado de carvalhos dispersos sobre pastagem é uma paisagem humana com milhares de anos que sustenta mais espécies do que a floresta densa. Mas o terreno abandonado transforma-se em eucaliptal e mato denso que arde de forma catastrófica, como Portugal viu em 2017. A água é a outra alavanca: uma zona húmida drenada são cem espécies perdidas, um ribeiro com as árvores da margem no lugar é um viveiro de peixes e um travão às cheias. Como pessoa que cultiva, colhe ou simplesmente caminha, fazes parte do sistema. Deixa as orlas, mantém as árvores junto à água, respeita as proibições de fogo, e leva pouco em vez de muito.
Voltar à regra
Perceber os ecossistemas faz de ti melhor colhedor sobretudo por uma razão: aprendes o que deve estar a crescer onde e quando, por isso uma planta ou um cogumelo no sítio ou na estação errados passa a ser um sinal de alarme em vez de um achado de sorte. Um “cantarelo” num relvado em junho não é um cantarelo. Um rebento de “espargo bravo” em agosto é outra coisa qualquer. O contexto faz parte da identificação, e a identificação é a regra que não cede. Nunca comas nada que não tenhas identificado com certeza, no habitat certo, na estação certa, confirmado por alguém que sabe. A terra alimenta-te uma vida inteira se a aprenderes devagar e a levares a sério.
Testa-te
As orlas, como sebes e margens de bosque, têm espécies dos dois habitats mais as suas próprias, e é por isso que quem colhe e quem rastreia trabalha nelas.
A chuva de outono põe fim à dormência do verão. A erva fica verde, os cogumelos frutificam e caem as castanhas. O verão é a estação morta.
A fenologia regista o calendário dos acontecimentos naturais. Ao fim de alguns anos torna-se um calendário local para colher, plantar e caminhar.
O habitat e a estação fazem parte da identificação. Sítio ou altura errados quer dizer que é provavelmente outra coisa. Nunca comas nada que não tenhas identificado com certeza.
Experimenta a sério: Mapear o teu ecossistema local
- Escolhe uma caminhada de 1 km perto de casa e desenha os habitats que atravessas: bosque, orla, prado, mato, água, campo agrícola.
- Em cada orla, anota três plantas, um sinal de animal e uma coisa feita por pessoas (sebe, vala, vedação, corte de erva).
- Começa uma página de fenologia no teu diário com a data de hoje e três coisas que estão a acontecer agora.
- Marca a época de risco de incêndio e as proibições de fogo da tua região e põe um lembrete no calendário.
- Repete a caminhada daqui a três meses e regista o que mudou.
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Escrito e verificado pela equipa Human Skills com base nas fontes abaixo. Como verificamos o conteúdo
- FAO Forest Resources Assessment
- ICNF Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas
- Leave No Trace Center for Outdoor Ethics

